Plantando Estrelas no Sertão da Paraíba

Observação pública na Praça de Maturéia

Observação pública na Praça de Maturéia

No último 20 de outubro, duas escolas públicas da cidade de Maturéia, no Sertão Paraibano, receberam uma visita especial. Entre os vários astrônomos presentes para o 5° Encontro Paraibano de Astrofotografia, que se iniciaria naquele dia, alguns deles de dispuseram a realizar algumas atividades em duas das escolas e na praça pública da cidade. Entre eles, estava eu, e particularmente acredito que essas atividades foram a melhor parte do encontro.

Na sexta-feira, dia 20, Professor José Rodrigues, Lauriston Trindade e eu, visitamos as escolas Maria Tâmara e Moacir Dantas. Nelas, apresentamos palestras, fizemos oficinas de modelos de meteoritos, asteroides e cometas, modelos para demonstrações das dimensões do Sistema Solar e das fases da Lua, além de uma observação do Sol através de telescópio com filtro apropriado. Experiências inéditas para a maioria dos jovens e crianças que participaram dessas atividades. O interesse e o encantamento de todos era evidente.

Observação solar na Escola Maria Tâmara

Observação solar na Escola Maria Tâmara

Palestra na Escola Maria Tâmara

Palestra na Escola Maria Tâmara

Palestra Escola Moacir Dantas

Palestra Escola Moacir Dantas

Oficina Dimensões do Sistema Solar na Escola Moacir Dantas

Oficina Dimensões do Sistema Solar na Escola Moacir Dantas

No sábado a noite, levamos nossos telescópios para a praça da cidade e realizamos uma observação pública com a população local. A Prefeitura, que nos deu um grande apoio sempre, providenciou o desligamento da iluminação pública nas proximidades da praça e com isso, pudemos realizar as observações sem interferência luminosa, o que tornou a experiência ainda melhor. Contamos também com a ajuda dos professores Francisco Nobre do IFPB e Walter Pessoa, do Observatório Monte Saturno de Pernambuco. Juntos, apresentamos ao público presente a Lua, o Planeta Saturno e a Galáxia de Andrômeda.

Em momentos assim, a curiosidade é despertada. O que criou essas crateras? O que está iluminando o lado escuro da Lua? O que são os anéis de Saturno? A medida em que respondíamos as perguntas, surgiam mais, e mais… E é assim que o conhecimento científico é construído. As dúvidas nos movem, nos estimulam a buscar respostas, e a cada resposta, mais dúvidas surgem. Estimular a curiosidade em nossos jovens e em nossas crianças é a forma mais eficaz de torná-los bons estudantes e, consequentemente, pessoas melhores no futuro.

Naquela noite, voltamos todos extasiados para o Casarão do Jabre. A sensação de satisfação entre nós era enorme, mas eu ainda pensava em uma das perguntas feitas naquela noite e que eu não havia conseguido responder. Já passava das nove e meia da noite, estávamos desmontando os telescópios quando um dos jovens que acompanharam toda a noite de observação perguntou-nos, por que, estando em um dos melhores locais na Paraíba para fotografar o céu, estávamos nós ali, na praça, invés de estar fazendo nossas fotos.

Era evidente que aquilo nos dava prazer, e no meu caso, até mais do que a atividade principal do encontro (a astrofotografia). Mas ao pensar neste porquê, pude perceber que isso são os frutos das sementes plantadas há de meio século por um senhor chamado Rubens de Azevedo.

Rubens de Azevedo foi um dos grandes astrônomos que o Brasil já teve. Nascido em Fortaleza no ano de 1921, Rubens se notabilizou por seus trabalhos científicos no estudo da Lua e por sua incrível disposição para fundar associações astronômicas pelo Brasil. Disseminar o estudo da Astronomia parecia a razão de viver de Rubens de Azevedo. Entre outros diversos clubes, associações e observatórios, foi fundador, em 1947, da primeira associação de Astronomia amadora do Brasil, a SBAA – Sociedade Brasileira dos Amigos da Astronomia. Em 1948 fundou em Minas Gerais o Observatório Camile Flammarion, o primeiro observatório popular brasileiro, e a Sociedade Brasileira de Selenografia, em São Paulo.

Professor Rubens de Azevedo

Professor Rubens de Azevedo

Na Paraíba, Rubens de Azevedo foi um dos fundadores da APA, a Associação Paraibana de Astronomia em 1967 e em 1968, fundou o Observatório Astronômico da Paraíba que foi até hoje, o único observatório público do Estado. Foi também o principal responsável por trazer para a Paraíba o 1° Encontro Nacional de Astronomia, que ocorreu em São Gonçalo em 1970. Foi justamente nesse encontro, que o jovem estudante José Rodrigues conheceu o Professor Rubens de Azevedo. Apesar de já se interessar pela Astronomia antes, foi a partir desse encontro em que ela entrou de vez na vida de José Rodrigues. Não sei se foi apenas coincidência, mas assim como Rubens, José Rodrigues se tornou professor e um dos grandes divulgadores da Ciência na Paraíba. Uma de suas maiores satisfações é viajar para as cidades do interior do Estado levando seus modelos astronômicos e um pouco do seu conhecimento.

Anos depois, tive o prazer de conhecer o Professor José Rodrigues. Passamos horas em uma conversa muito boa na varanda da sua casa. Isso foi em 2012, o ano em que eu entrei para a APA e que comecei, provavelmente naquela varanda, a seguir os passos do Professor José Rodrigues e do Professor Rubens de Azevedo. Pessoas como eles são de uma simplicidade e ao mesmo tempo de uma grandeza que emociona, cativa e inspira.

E naquele final de semana, estávamos lá em Maturéia, o Professor José Rodrigues, seus modelos astronômicos, Lauriston Trindade e eu, levando um pouco das maravilhas da astronomia para aquela pequena cidade do Sertão da Paraíba. O Lauriston, por sinal, é também um outro fruto daquelas sementes da Astronomia plantadas por Rubens de Azevedo.

Lauriston nasceu em Maranguape, vizinha à Fortaleza, e quando criança, procurou um senhor em sua cidade que possuía um telescópio. Ele queria aprender sobre Astronomia e observar os astros através daquele equipamento tão raro por lá. Mas ouviu desse senhor que ele, na condição de criança não poderia manipular algo tão delicado e que deveria então crescer, trabalhar e comprar seu próprio telescópio. Felizmente, a sua curiosidade era muito grande e essa humilhação nunca foi impedimento para ele, apesar de nunca ter esquecido dela.

Ainda jovem, Lauriston conheceu o Professor Demerval Carneiro, com quem aprendeu muita coisa da Astronomia, entre elas, o prazer em levar o telescópio para uma praça, para que todos possam ter a experiência de observar os astros por ele. E não poderia ser diferente. Demerval é um daqueles que tiveram o prazer de conviver com Rubens de Azevedo. Atualmente, Demerval é diretor do Planetário Rubens de Azevedo em Fortaleza e Presidente da Sociedade Brasileira dos Amigos da Astronomia, fundada por Rubens.

Em Maturéia, Lauriston estava recém chegado da Europa, onde esteve frente a frente com alguns dos maiores nomes na astronomia mundial. Lá ele apresentou o resultado de um trabalho desenvolvido junto a BRAMON e trouxe de volta, na sua bagagem, o respeito internacional pelo trabalho brasileiro e a mesma humildade com que saiu daqui. Humildade talvez herdada de Rubens e que tem origem na consciência de que sempre temos algo mais a aprender e a ensinar. Humildade que o levou a Maturéia, para contar suas histórias e mostrar aos jovens de lá, que o estudo e a perseverança é capaz de transformar vidas e de te fazer chegar longe. Mais do que isso, Lauriston estava lá, levando um telescópio para as escolas e para a praça pública, despertando e motivando o interesse dos jovens e das crianças de lá. Estava estimulando a curiosidade e dando a eles o prazer de operar aquele equipamento, exatamente como não fez aquele senhor de Maranguape que lhe negou essa experiência em sua infância.

Lauriston na Observação pública na praça de Maturéia

Lauriston na Observação pública na praça de Maturéia

Fui percebendo que aquele sorriso e o brilho nos olhos das crianças, o deslumbramento nos idosos e adultos ao ver algo tão diferente, em conhecer algo novo. Enfim, fui percebendo que o principal motivo de estarmos naquela noite, naquela praça é o prazer que sentimos em compartilhar nosso encantamento pelo céu com o público. É nesse momento em que disseminamos a Astronomia que fazemos jus ao trabalho do Professor Rubens de Azevedo. De alguma forma, estamos honrando seu nome e tudo que ele fez pela Astronomia na Paraíba, no Nordeste e em todo Brasil.

E apesar de ter sido um dos melhores Encontros Paraibanos de Astrofotografia que já fizemos, nada foi melhor naquele final de semana do que observar as estrelas brilhando nos olhos daquelas crianças. Quem sabe desses olhares nascerão alguns cientistas, engenheiros, médicos… Quem sabem sairão daquela praça os gestores públicos do futuro, que saberão valorizar a ciência nesse país. Ou quem sabe, brotarão dali, as mesmas sementes plantadas em nós por Rubens de Azevedo e estes serão amanhã os responsáveis despertar em nossas crianças, em nossos jovens e em nosso povo, o prazer pela Ciência e a força necessária para transformar nosso mundo em um mundo melhor.

Em 2008, Rubens de Azevedo faleceu. Não deixou filhos, mas algumas centenas de órfãos em todo o Brasil. Imagino que, se ele ainda estivesse entre nós, certamente estaria também em Maturéia naquele final de semana. E estaria cheio de orgulho em ver como renderam bem aquelas sementinhas plantadas há meio século.

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